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A formação é longa e cara. Talvez por isso existam tão poucos cães-guia no Brasil. São cerca de 80 em todo o país.
 
O Jornal das Dez desta segunda-feira (22) mostrou a dificuldade que os deficientes visuais encontram para entrar com um cão-guia em diversos locais públicos e privados, apesar de ser um direito garantido por lei. Nesta terça, a equipe de São Paulo mostrar como são formados esses animais.
A formação é longa e cara. Talvez por isso existam tão poucos cães-guia no Brasil. São cerca de 80 em todo o país e a espera na fila para ter um animal desses pode chegar a dois anos. E o custo passa dos R$ 30 mil.
Em breve, os olhos de filhotes de cachorros mostrados no vídeo serão os olhos de uma pessoa que não pode enxergar. Mas é preciso tempo. Em dois anos, eles serão como Uait, o cão-guia de Marcos.
 
Uait veio dos Estados Unidos.
 
“Depois que você passa a usar o cão guia é difícil você não querer continuar usando porque a diferença é enorme. Você anda muito mais rápido”, conta o Marcos Leandro, funcionário público.
 
Importar o cachorro foi a alternativa de quem não queria mais depender da bengala.
 
Esvana, mulher de Marcos, espera há seis anos pelo cão-guia dela. Enquanto ele não chega, é obrigada a conviver com grandes obstáculos.
 
“Você rela em alguma coisa, num orelhão, numa banquinha de camelô que está ali, carrinho de cachorro quente também, coisas do tipo”, diz Esvânia de Fátima Leandro, telefonista.
 
Estima- se que em todo o Brasil, há no máximo 80 animais como o Uiait. Ao mesmo tempo, cerca de cinco mil pessoas com deficiência visual estão na fila a espera de um cão. Por que há tão poucos animais como este no país? É que adestrar um cão guia exige mão- de- obra qualificada; leva tempo, de um a dois anos, e é caro. Custa, em média, R$ 30 mil.
 
O único canil que treina cachorros para cegos no país funciona numa chácara em Embu, na Região Metropolitana de São Paulo. Os bichos ficam no local até desmamar. Depois, são adotados por famílias socializadoras. São voluntários como o Gabriel, que têm a missão de ensinar ao cão noções de como se comportar em diferentes situações: como caminhar na rua, passear por lugares movimentados. Epcot acompanha Gabriel até no trabalho.
 
“A minha vida é bem corrida, bem puxada, e ele me acompanha em todos os lugares. É a socialização dele neste primeiro momento. Ele é muito obediente”, afirma Gabriel Simonati, publicitário.
 
Mas essa convivência tem data marcada para acabar. Daqui a um ano, Gabriel vai ter que devolver o labrador para o canil. Ao que parece não vai ser fácil.
 
“É bom não pensar muito nisso. Acho que o intuito da adoção é pelo projeto. É a gente contribuir e passar para um deficiente visual mais necessitado”, diz Gabriel Simonati.
 
Só quando volta ao canil, o cachorro recebe adestramento especifico para acompanhar cegos. Ele aprende os comandos por repetição.
 
Essa fase dura de seis meses a um ano, depende do cachorro. A etapa seguinte é adaptar o cão ao deficiente visual. É quase um casamento, diz a adestradora.
 
“Este cão já treinado vai aprender agora a conduzir esta nova pessoa que é o usuário dele, mais o treino da pessoa no uso como um cão. Inclusive não só de percurso como também de cuidado e a manutenção do cão”, diz Sandra Camis, adestradora.
 
A dupla Luiz e Y deu certo. Eles estão juntos há 6 anos. Este é o quarto cão guia na vida de Luís.
“Só o fato de você não precisar de alguém para atravessar uma rua, de você não precisar de alguém para encontrar uma cadeira, encontrar o balcão de uma loja, um ponto de ônibus, já é uma grande ajuda. Trinta e sete anos usando cão guia já é um pedaço de mim. Faz parte do meu ser”, conta Luís Alberto de Carvalho e Silva, presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas.